segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Mercearias e Fantasias


Na senda de recentes artigos em que procuro enquadrar a evolução do mercado accionista num contexto financeiro alargado, desta vez vou abordar a questão numa perspectiva mais económica. Para tal, e como bom “financista”, recorro a variáveis dos mercados financeiros, pois dados puramente “económicos” não são de fiar. Depois de alguma reflexão e experiências, seleccionei um conjunto de rácios de ETFs sectoriais para o efeito.

O primeiro rácio é composto pelo XOI (empresas petrolíferas) e o HUI (empresas auríferas), muito na linha do meu famoso par “Ouro/Petróleo”. A subida deste rácio está normalmente associada a expansão económica, pois a produção de energia ganha vantagem. Apresenta-se abaixo um gráfico com a evolução desse rácio desde 1996, quando foi criado o HUI.

O XOI/HUI igualou há pouco um máximo relativo alcançado em 2015 e imediatamente caiu até à MM-200d. A associação de uma forte resistência no nível 11 com uma queda abrupta aumenta a probabilidade de um significativo movimento correctivo, tendo em conta o que aconteceu em situações semelhantes em 2001 e 2015. Face a este cenário, afigura-se provável um significativo impacto negativo no mercado accionista em geral.



O 2º rácio é composto pelo XLK (bens tecnológicos) e XLP (bens necessários), que posso traduzir de uma forma mais simples por “Fantasias/Mercearias”. Aqui também se pode associar a subida deste rácio à expansão económica, quando o supérfluo ganha espaço. O gráfico abaixo conta a história do XLK/XLP desde 1999, quando ambos foram criados.

O XLK/XLP acabou de interromper uma tendência forte de subida de 2 anos, suportada pela MM-200d. A queda abrupta que perfurou a linha de tendência assemelha-se muito ao que aconteceu em 2000, no fim da euforia “TMT” (Tecnologia, Media e Telecom), contrastando profundamente com a estabilidade verificada no entretanto. Aqui também se afigura provável um impacto negativo no mercado accionista em geral. 


O 3º rácio resulta da minha procura por algum indicador que sinalizasse a subida do mercado accionista até às vésperas da crise de 2008, pois os anteriores não o fazem. Acabei por encontrá-lo no rácio entre o XLE (empresas energéticas) e o XLI (empresas industriais), melhor apreendido pela expressão “Carvão/Combustão”. Assim, o que se passou entre 2004 e 2008 foi uma dinâmica brutal do sector energético que não foi acompanhado pelo sector produtivo.

Desde 2008 para cá o XLE/XLI caiu gradualmente até atingir o mesmo nível estável que tinha antes de 2004. A estabilidade mantida desde o início de 2017 torna cada vez mais provável a repetição do período anterior a 2004, o que teria um impacto neutral no mercado accionista em geral. Assim, junta-se um voto nulo do “carvão/combustão” aos votos negativos do “petrolífero/aurífero” e do “fantasia/mercearia”!